Resenha do livro Menino de Engenho de José Lins do Rego.

Fonte da imagem: Travessia Poética

José Lins do Rego situa historicamente a sua obra Menino de Engenho no contexto político-econômico brasileiro pós-escravatura. Carlinhos é o personagem-narrador que destaca os principais acontecimentos da sua infância registrados em suas lembranças. Aos quatro anos de idade perde a sua mãe que foi vitima de um crime de homicídio cruel cometido pelo pai. A violência contra a mulher é uma prática que, infelizmente, faz parte da cultura patriarcal e machista brasileira. Neste sistema de relações desiguais de dominação e exploração das mulheres pelos homens cultua-se a ideologia de que os homens são naturalmente mais fortes, possuem o espirito de competição e empreendedorismo mais aflorado do que as mulheres, as quais são vistas e tratadas como mais frágeis, submissas e, portanto, devem resignar-se frente a sua condição de subalternidade e inferioridade em relação aos homens, desempenhando assim funções e cargos considerados sem prestígio, status ou relevância social, já os homens são ensinados desde criança a se comportarem como fortes, durões, a tomarem decisões e a inserir-se em cargos de alta patente ou legitimidade no mercado de trabalho.
Foi levado pelo seu tio Juca para morar no engenho do seu avô, o Santa Rosa. Passou a partir de então a ser criado pela sua tia Maria, que o tratava como um filho legítimo o enchendo de carinho, afagos e mimos. Carlinhos via nela feições maternas e despertou-lhe um sentimento de amor maternal como o que sentira por sua mãe. A dor da perda da sua mãe era enorme, sentia saudades sempre que lembrava-se dos momentos bons que viveram juntos. Com as lembranças vinham as lágrimas, o choro, a solidão, o aperto no peito. Perder um ente querido é doloroso. Perder uma mãe é duplamente triste, inenarrável, é um fato inexpressível por palavras. Perder uma mãe ainda desfrutando da tenra infância é ainda pior, pois nesta fase da vida precisamos do afeto materno, da sua proteção, do seu amor e carinho, pois somos indefesos, não compreendemos o mundo como ele realmente é, não entendemos os perigos, sentimos medos inexplicáveis do desconhecido, do novo e, assim, precisamos de alguém em quem confiamos para nos ensinar o caminho certo a ser seguido e trilhado.
Na fazenda ele faz novos amigos. Conhece os seus primos e primas e logo se sociabiliza. Brincavam de um tudo, desde soltar pipa, pião, tomar banho de rio, açude e poço. A vida campestre é maravilhosa, inspiradora e revigoradora das boas energias. O clima rural o encantou, as belas paisagens, a vivacidade da natureza o deslumbrou. As propriedades do seu avô eram quase infinitas.
Carlinhos se lembra do sofrimento dos negros e negras que mesmo após a abolição da escravidão ainda eram vitimas de abuso sexual pelos senhores de engenho, pelos seus empregados e outros homens, além de sofrerem maus tratos, como exploração da sua força de trabalho. Trabalhavam durante longas jornadas de trabalho em relações e condições de trabalho precárias, insalubres. Ganhavam o suficiente para sobreviverem e se reproduzirem. Não tinham uma vida digna e humanamente aceitável. Moravam ainda em casas fétidas e precarizadas ou nas próprias senzalas. Em troca do seu trabalho recebiam abrigo e alimentação que muitas vezes era insuficiente, ingerível. As negras eram vítimas constantes de abusos sexuais, como assédio e estupro, seus corpos eram objetos de desejos de satisfação sexual dos homens. Sua condição de ser humano digno de respeito e valorização era violada brutalmente para satisfazer os caprichos e desejos alheios.
Juntando-se com os moleques da bagaceira Carlinhos é influenciado para o caminho da perdição, para o mundo da libertinagem, da perversão. Perdeu sua virgindade precocemente ainda com 12 anos de idade. Por outro lado também foi vitima do aliciamento e assédio sexual. Contagiou-se com uma doença sexualmente transmissível após se relacionar com uma das negras da fazenda. Perdeu sua ingenuidade e inocência de criança. Passou a ser tratado como um adulto em corpo de criança. Orgulhava-se dos seus feitos eróticos, da sua doença, pois tudo sinalizava que já era um “homem feito” e ele gostava disso.
Quando sua tia se casou foi estudar num colégio interno. Apesar das suas peripécias de criança libertina queria se tornar um homem sociável, do bem, sabia que o internato seria uma oportunidade para mudar seus conceitos e comportamentos. Queria pelos menos satisfazer as vontades de sua mãe e lhe dar um pouco de orgulho onde ela estivesse. Sua principal diferença para o garoto Sérgio, personagem da obra O Ateneu de Raul Pompeia, era que entrara no internato como uma criança conhecedora do mundo, já Sérgio era uma criança indefesa e inocente.

Autor: Marcondes Torres.

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