Resumo do livro O que é Educação de Carlos Rodrigues Brandão

Fonte da imagem: faceaovento.com

A educação é um processo e uma realidade que faz parte da vida de todos os sujeitos sociais. Ensinar e aprender, aprender e ensinar faz parte do cotidiano de todos nós que constituímos a espécie humana, seja na escola, em casa, no trabalho, na rua, com os amigos, colegas, familiares. “Ninguém escapa da educação. Em casa, na rua, na igreja ou na escola, de um modo ou de muitos todos nós envolvemos pedaços da vida com ela: para aprender, para ensinar, para aprender-e-ensinar. Para saber, para fazer, para ser ou para conviver, todos os dias misturamos a vida com a educação. Com uma ou com várias: educação? Educações” (p. 3).
O conhecimento humano é diverso e quase infinito, como disse Schopenhauer certa vez: ele se espalha para todos os lados a perder de vista, de modo que nenhum individuo tem a capacidade cognitiva/intelectual de apreender sequer a milésima parte daquilo que é digno de ser apreendido.
Existem vários tipos, formas e níveis de conhecimento: o científico, o empírico, o metafísico, o teológico e entre outros. Todos exercem um papel e uma importância no nosso processo de formação humana. Ensiná-los e aprendê-los é uma das formas de educação. A educação, no entanto, não se restringe só ao processo pedagógico ensino-aprendizagem de conhecimentos científicos teóricos, mas também ao ensino-aprendizagem de práticas populares, costumes, tradições, valores, normas de condutas, comportamentos seculares transmitidos de geração a geração por povos de várias partes do mundo, enfim também diz respeito às diversas culturas que são reproduzidas ao longo dos séculos e constituem a diversidade de conhecimentos, modos de ver, vivenciar e sentir o mundo, a natureza, a sociabilidade humana.
Todo conhecimento é cultural e expressa o modo de se organizar politica, social e economicamente de um povo, uma comunidade, uma nação. “Em mundos diversos a educação existe diferente: em pequenas sociedades tribais de povos caçadores, agricultores ou pastores nômades; em sociedades camponesas, em países desenvolvidos e industrializados; em mundos sociais sem classes, de classes, com este ou aquele tipo de conflito entre as suas classes; em tipos de sociedades e culturas sem Estado, com um Estado em formação ou com ele consolidado entre e sobre as pessoas” (p. 4). O conhecimento de um político chinês provavelmente não teria tanta importância e utilidade para um indígena do Estado do Acre no norte do Brasil. O conhecimento e a educação são, portanto, funcionais para reproduzirem e perpetrarem o status quo de uma determinada sociabilidade, de um determinado modo de produção ou forma de organização social situada historicamente no decurso da humanidade.
Sob a égide do modo de produção capitalista o conhecimento científico atingiu o seu auge e continua a se expandir e ampliar. A ciência avançou como nunca, o desenvolvimento tecnológico, a descoberta de novos meios de produção, de novas máquinas e instrumentos de alto nível tecnológico na área da saúde, da educação, da segurança, da agricultura e pecuária emergiram expressivamente. Porém, o seu domínio e uso estão restritos a uma minoria dominante e os demais sujeitos só os acessam, majoritariamente, através do mercado de compra e venda de mercadorias, ou seja, do mercado de consumo.
A educação é o meio pelo qual os povos se utilizam para transmitirem seus conhecimentos, suas crenças, seus valores e princípios, seus códigos e normas de conduta, sua religião, a forma e os meios que o artesão utiliza para produzir os objetos necessários a sua comunidade, como o engenheiro elabora uma planta de uma residência ou de um prédio comercial, como o médico desenvolve e realiza uma cirurgia complexa e delicada num paciente, a maneira como o mestre educador transmite o seu conhecimento para os seus discípulos, aprendizes, alunos e/ou educandos, enfim a educação representa tudo aquilo que viabiliza a construção e o desenvolvimento do ser humano enquanto espécie pensante, inteligente, teleológica e racional.
O mundo e as sociedades que o constituem são espaços e meios de ensino-aprendizagem. Este processo não é e nem deve ser resumido só aos espaços institucionais oficializados como de transmissão do saber, como as escolas e universidades. Aprendemos e ensinamos no seio familiar, na interação com os adultos, crianças e idosos. Todos ensinamos e aprendemos cotidianamente num processo mútuo mesmo que não percebamos e tenhamos consciência disso. “Em todos os cantos do mundo, primeiro a educação existe como um inventário amplo de relações interpessoais diretas no âmbito familiar: mãe-filha, pai-filho, sobrinho-irmão-da-mãe, irmão-maisvelho- irmão-caçula e assim por diante. Esta é a rede de trocas de saber mais universal e mais persistente na sociedade humana. Depois, a educação pode existir entre educadores-educandos não parentes — mas habitantes de uma mesma aldeia, de uma mesma cidade, gente de uma mesma linguagem — semi-especializados ou especialistas do saber de algum ofício mais amplo ou mais restrito: artesão-aprendiz, sacerdote-iniciado, cavaleiro-escudeiro, e tantos outros. Porém, historicamente a educação e o conhecimento foram cooptados e regidos pela classe dominante para reproduzirem a ordem social e manterem os seus privilégios e a estrutura de organização da sociedade de classes” (p.13-14).
Porém, não podemos nos enganar! As instituições de ensino, públicas ou privadas, expressam, ainda que ocultamente ou implicitamente, interesses políticos de classe, ou melhor, daqueles que a desenvolveram para atender os seus interesses particulares e escusos, isto é, atender os interesses do mercado de trabalho. Afinal de contas, a tendência atual, nos marcos da sociabilidade capitalista, é formar “mercadorias” especializadas em determinadas áreas de produção e conhecimento, isto é, formar tecnicamente força de trabalho para atender as demandas e necessidades de desenvolvimento e expansão do mercado capitalista, a fim de garantir as condições necessárias para a sua reprodução e ampliação da sua lucratividade e produtividade. “No entanto, pensando às vezes que age por si próprio, livre e em nome de todos, o educador imagina que serve ao saber e a quem ensina mas, na verdade, ele pode estar servindo a quem o constituiu professor, a fim de usá-lo, e ao seu trabalho, para os usos escusos que ocultam também na educação — nas suas agências, suas práticas e nas ideias que ela professa — interesses políticos impostos sobre ela e, através de seu exercício, à sociedade que habita” (p. 5).
Quem domina e explora está pouco preocupado com uma educação popular revolucionária que forme sujeitos pensantes, crítico-reflexivos que compreendam a realidade em sua totalidade apreendendo os processos sociais não na forma como eles se manifestam imediatamente, mas como se constituem em sua essência. Ao contrário, este modelo de educação é abominado e combatido por aqueles que querem se manter na condição de dominadores donos do poder. Por isso que a educação que é ofertada pelos poderes públicos, ou melhor, pelo Estado burguês aos subalternos desprovidos de quase tudo o que é produzido coletivamente é uma educação romantizada, alienante e alienadora, tecnicista, fragmentada, aligeirada, pragmática, que encobre e oculta os fatos e fenômenos históricos em sua essência evidenciando apenas a sua aparência.
Vivemos numa sociedade fruto de uma construção histórica e social permeada por costumes, crenças e valores, em sua maioria, preconceituosos, discriminadores e excludentes, como o machismo, o patriarcalismo, o sexismo, a misoginia, a homofobia, o racismo, a xenofobia e uma série de outras formas de preconceito, estereótipos e discriminação. A construção e reprodução desses valores, ideologias e ideias se processaram através da educação e o seu rompimento e combate também se efetivarão através de um processo educativo emancipador, revolucionário e anticonservador no sentido de mudar o pensar e o agir coletivos.
Tudo o que aprendemos desde criança faz parte da cultura que nos envolve. Cada sociedade desenvolve seus modos próprios de viver, de se relacionar entre si e entre a natureza. Nos marcos da sociabilidade patriarcal somos “educados” e ensinados a se comportar conforme os papeis e funções sociais que nos são atribuídos e cobrados pelo consenso da coletividade, consenso este que se perpetua mesmo que contra a vontade de alguns sujeitos. Mulheres e homens, crianças e adultos, novos e velhos, negros e brancos “devem” seguir e se comportar conforme a sociabilidade do seu grupo social, de acordo com os comportamentos e condutas morais, religiosas, políticas e sociais que, no entanto, variam conforme a sua posição socioeconômica e política dentro da ordem estabelecida vigente.
Numa cultura indígena, assim como em outras culturas, os sujeitos variados e diferenciados por faixa etária e gênero são ensinados a agir por modos de ser específicos que os distinguem dos demais. “Ora, a educação é o território mais motivado deste mapa. Ela existe quando a mãe corrige o filho para que ele fale direito a língua do grupo, ou quando fala à filha sobre as normas sociais do modo de "ser mulher" ali. Existe também quando o pai ensina ao filho a polir a ponta da flecha, ou quando os guerreiros saem com os jovens para ensiná-los a caçar” (p. 11).
A sociabilidade humana não é, portanto, uma construção da natureza, mas uma construção do próprio homem em conjunto, e se este modelo de convivência não condiz com um mundo humano digno onde todos possam desenvolver suas potencialidades e capacidade de forma igual e livre outro modelo pode ser por este mesmo homem construído. Todavia, este processo não é tão simples e fácil como muitos desejam, é, ao contrário, um processo lento, gradual e a longo prazo que os seus efeitos só surtirão num futuro talvez distante e longínquo, ou não. Como disse, pois, séculos atrás o brilhante pensador Karl Marx a sociedade humana está em constante transformação e mudança, nada é estático, tudo muda, tudo evolui ou retrocede. A história passada e presente da humanidade foi e é dinâmica, foi e é construída, reconstruída, produzida, reproduzida, desconstruída e deslegitimada num processo dialético sem fim.
Os tipos de educação e conhecimento são apropriados e transmitidos aos sujeitos sociais de forma, grau e níveis diferentes, conforme a sua condição e status social. A educação e o conhecimento não são infelizmente apropriados por todos de forma igualitária. Nem todos os sujeitos têm acesso a uma educação de qualidade, seja tecnicista ou emancipadora. Na divisão social e técnica do mercado de trabalho e consumo capitalista, por exemplo, assim como em outras formas antepassadas de sociabilidade, o conhecimento é apropriado e reproduzido desigualmente entre os sujeitos que constituem as classes sociais, isto é, uns servem ao sistema para pensar outros para produzir, uns desenvolvem o trabalho manual-técnico-produtivo outros desenvolvem um trabalho intelectual de planejar os processos da produção e a elaboração dos seus meios. Em sociedades pré-capitalistas, assim como na atual sociedade, “a educação do jovem livre vai em direção à teoria, que é o saber do nobre para compreender e comandar, não para fazer, curar ou construir” (p. 19).
Mas afinal o que é educação. É tudo o que já foi até aqui expresso e analisado e muito mais do que isso. É o processo pelo qual o ser humano se torna um ser social, adaptado a sociabilidade do seu grupo social e étnico-cultural. É o meio pelo qual desenvolve todas as capacidades, potencialidades físico-corporais e cognitivo-intelectuais à sua espécie inerentes por natureza. Segundo o Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa a educação é a "ação e efeito de educar, de desenvolver as faculdades físicas, intelectuais e morais da criança e, em geral, do ser humano; disciplinamento, instrução, ensino" (p. 25).
No entanto, a educação oficial e institucionalizada expressa nas escolas e universidades, a fim de atender aos interesses capitalistas, está cada vez mais sendo tirada do âmbito de responsabilidade do Estado e sendo transferida para a esfera do mercado privado de consumo, tornando-se uma mercadoria como outra qualquer. "‘A política educacional implantada levou à progressiva desobrigação do Estado com o custeio da Educação, e à expansão do ensino privado. Assim, a educação está aberta à ação dos empresários do ensino, sujeita às leis da iniciativa privada, sendo negociada como mercadoria entre as partes interessadas em vender e comprar, o que revela o caráter elitista do atual processo educacional no Brasil.’ (Boletim Nacional das Associações de Docentes, nº 3)” (p. 27).

Como já venho ressaltando o conhecimento e todo o arsenal de ideias, ideologias, culturas, tradições, valores e princípios, saberes etc que o constituem são fruto de construções históricas e expressam o modo como os sujeitos se organizam e se organizaram, como disse Marx, no seu convívio, na construção da estrutura social da sua sociedade, situada social e historicamente, afinal “a maneira como os homens se organizam para produzir os bens com que reproduzem a vida, a forma de ordem social que constroem para conviver, o modo como tipos diferentes de sujeitos ocupam diferentes posições sociais, tudo isso determina o repertório de idéias e o conjunto de normas com que uma sociedade rege a sua vida. Determina também como e para quê este ou aquele tipo de educação é pensado, criado e posto a funcionar”. (p. 33-34).

Autor: Marcondes Torres.

Por favor, compartilhe!

  • Share to Facebook
  • Share to Twitter
  • Share to Google+
  • Share to Stumble Upon
  • Share to Evernote
  • Share to Blogger
  • Share to Email
  • Share to Yahoo Messenger
  • More...

Nenhum comentário :

O que achou do blog? (Sugestões, Críticas, Opiniões e Elogios)

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Minha Estante

Meu Livro!

Scroll to top