Resumo do filme Ônibus 174 de José Padilha

Fonte da imagem: BOL

Excelente, crítico e reflexivo! Estes são apenas alguns dos adjetivos que podemos usar para descrever a qualidade do documentário “Ônibus 174” produzido pelo diretor José Padilha em 2002. Trágico, comovente e lamentável! Estes, por sua vez, são elementos que podemos atribuir ao desfecho do sequestro retratado pelo documentário.
O documentário demonstra sinteticamente os fatos que foram encobertos pela grande mídia brasileira na época do sequestro registrando aleatória e paralelamente as falas de psicólogos, antropólogos, policiais, jornalistas, amigos e parentes do sequestrador com cenas do ocorrido. Essa mistura de sons, luzes e imagens gera uma cadeia de sentimentos e emoções que atiçam a imaginação e a consciência crítica dos espectadores. Mostra, sobretudo, os dois lados da história. Tanto as causas e circunstâncias que levaram Sandro do Nascimento a se tornar menino de rua e posteriormente criminoso - realidade que foi oculta pelos meios midiáticos e impressos de comunicação - quanto a versão dos reféns foram analisadas pelo documentário causando intencionalmente uma mistura de sentimentos como ódio, pena, raiva, perdão e lamentação.
Mas, afinal o que realmente ocorreu? No dia 12 de junho de 2000, segunda-feira, 14:20, aproximadamente, os passageiros do ônibus 174 da linha Central- Gávea circulavam como de costume no Jardim Botânico, zona sul do Rio de Janeiro, sem imaginar que o pior estava por acontecer. O ônibus foi interceptado por viaturas da polícia alertadas de que um assaltante estava ali presente. O pânico logo tomou conta do ambiente e dos passageiros. O motorista, o cobrador e alguns passageiros rapidamente pularam do ônibus. Cerca de 11 pessoas foram feitas reféns por Sandro do Nascimento que portava uma arma calibre 38, usada no assalto que se tornou sequestro. Em poucos minutos o local estava cercado por inúmeras pessoas dentre policias do BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais), fotógrafos, jornalistas e curiosos. O Brasil inteiro estava acompanhando tudo pelas principais emissoras de TV do país. Logo iniciou-se a negociação. Willians de Moura foi o primeiro a ser libertado sobrando apenas mulheres. Minutos depois a senhora Damiana Nascimento de Souza também foi libertada após sofrer um derrame cerebral, por conta da tensão, e ficar sem fala. Constantemente Sandro ameaçava de morte as vítimas que segundo elas era apenas fingimento para transparecer aos espectadores que ele comandava a situação e inspirava terror, mas que na verdade não era intenção dele matar ninguém, visto que se fosse ele teria o feito desde o início. Irritado com os fotógrafos atirou no vidro dianteiro do ônibus. Ao entardecer fez a jovem Janaína Neves escrever com batom no vidro da frente as seguintes frases: “Ele vai matar geral às 6 hs e “ele tem pacto com o diabo”. Preocupado em se livrar daquela situação Sandro decide sair do ônibus fazendo a jovem Geísa Firmo Gonçalves de escudo, quase 5 horas passadas. O pior aconteceu. Um policial surgiu de repente ao lado direito de Sandro e efetuou um disparo que infelizmente acabou atingindo de raspão o queixo de Geísa. Ambos caíram no chão e Sandro a atingiu com três tiros nas costas. No entanto, fica a dúvida: será que ele a matou intencionalmente ou agiu por instinto tentando salvar a própria vida? Todos sabemos que nos momentos de tensão agimos inconscientemente, por isso, deduz-se que Sandro agiu por impulso sem avaliar as consequências futuras dos seus atos, aliás ele agiu talvez não com a intenção de matá-la, mas, sobretudo e principalmente, com o objetivo de salvar-se da morte que o acurralava inevitavelmente. Desta forma, não podemos desumanamente descarregar toda a nossa raiva sobre ele, tentando justificar uma coisa pela outra, como fizeram os policiais que o asfixiaram penosamente até a morte quando o levavam para o hospital, assim também como a multidão de pessoas que queria linchá-lo como se ele fosse o algoz mais terrível da humanidade. Alegaram simplesmente que foi o método mais adequado, pois ele estava muito nervoso e agitado. Mas, isto não justifica matar alguém cruel e violentamente, afinal tranquilizá-lo com entorpecentes seria o mais viável e humanamente correto. Os policiais que o assassinaram foram julgados e inocentados. Isto demonstra o quão ineficiente é a legislação penal brasileira.
Entretanto, quem era verdadeiramente o Sandro Barbosa do Nascimento? Ele nasceu no dia 7 de julho de 1978 em uma favela do Rio de Janeiro. Teve uma infância pobre e estatalmente desamparada, afinal de contas seu pai abandonou sua mãe assim que soube que ela estava grávida e o Estado também o abandonou, pois sua família não teve acesso digno aos serviços básicos de sobrevivência. Segundo o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) a criança e o adolescente têm direito a proteção à vida e à saúde, mediante a efetivação de políticas sociais públicas que permitam o nascimento e o desenvolvimento sadio e harmonioso, em condições dignas de existência; têm direito à liberdade, ao respeito e à dignidade como pessoas humanas em processo de desenvolvimento e como sujeitos de direitos civis, humanos e sociais garantidos na Constituição e nas leis; têm direito a ser criado e educado no seio da sua família e, excepcionalmente, em família substituta, assegurada a convivência familiar e comunitária, em ambiente livre da presença de pessoas dependentes de substâncias entorpecentes; têm direito à educação, visando ao pleno desenvolvimento de sua pessoa, preparo para o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho. Enfim, será que o Sandro e a sua família tiveram acesso integral a todos estes direitos assegurados por lei? Será que desde a infância a sua vida e saúde foram protegidas? Será que ele teve acesso a políticas sociais públicas que garantissem que o seu nascimento e desenvolvimento fossem sadios e harmoniosos, ou melhor, será que ele se desenvolveu em condições dignas de existência? Será que a sua liberdade e dignidade enquanto ser humano foram respeitadas? Será que ele teve uma boa convivência familiar e comunitária num ambiente longe das drogas? Será que ele teve acesso a educação de qualidade que o possibilitasse exercer sua cidadania e a inserção no mercado de trabalho? Enfim, caros leitores, o que percebemos é que infelizmente o Sandro, assim como milhares de outros jovens e crianças do Brasil e do mundo, não teve acesso pleno aos direitos sociais, civis e humanos fundamentais a todos como os supracitados anteriormente. Muito pelo contrário, aos seis anos de idade presenciou a sua mãe sendo esfaqueada brutal e covardemente, fato que o levou a ser morador de rua. Nove anos depois, aos 15 anos de idade, quase foi assassinado por policiais em frente à capela da Candelária. Tragédia que ficou conhecida como a Chacina da Candelária, na qual 8 crianças e adolescentes foram mortos. Sandro foi um dos que escapou por sorte. Tudo isso influenciou e contribuiu fortemente para a má formação da sua personalidade. Nas ruas tornou-se usuário de drogas e criminoso, no sentido de que efetuou inúmeros roubos para sobreviver, ou seja, se alimentar minimamente e custear a compra de entorpecentes químicos. Afinal, a sociedade o excluía, o rejeitava, o tornava invisível como um objeto sem valor. Não nos importamos com o sofrimento e a dor alheios, a não ser que isso venha a nos prejudicar, a nos incomodar. Estamos tão acostumados com as tragédias que circulam nos meios de comunicação que nos coadaptamos naturalizando a realidade caótica e insuportável que nós mesmos criamos. A esse respeito um antropólogo relata no documentário que:

Esse Sandro é um exemplo dos meninos invisíveis que eventualmente emergem e tomam a cena e nos confrontam com a sua violência, que é um grito desesperado, um grito impotente. A nossa incapacidade de lidar com nossos dramas, com a exclusão social, com o racismo, com as estigmatizações todas... Esses problemas todos. Nós convivemos, aprendemos a conviver tranquilamente com os sandros, com as tragédias, com os fins das tragédias, com as extensões das tragédias. Isso se converteu em parte do nosso cotidiano.

Nas ruas, Sandro e seus colegas que compartilhavam do mesmo drama e situação viviam perambulando em busca de meios de sobrevivência, de reconhecimento e visibilidade perante a sociedade. Suas atitudes que infringiam as leis eram um reflexo do intenso processo de marginalização que sofreu do sistema. Sem sombra de dúvidas, sofreu preconceito, discriminação e, acima de tudo, exclusão social. Reproduzindo a ideologia capitalista costumamos penalizar as pessoas que vivem à margem deste sistema com palavras pejorativas, como vagabundos, desocupados, delinquentes, quer dizer, os consideramos culpados pela situação degradante em que vivem, sem ao menos refletirmos sobre as causas que os levaram a ter esta vida. Optando por uma consciência mais crítica percebemos que esta realidade é fruto da sociabilidade estabelecida com o surgimento e desenvolvimento do modo capitalista de produção. Sociabilidade esta caracterizada pela exploração de uma minoria sobre uma maioria esmagadora da população, fundada sobre as bases da exclusão e da dominação. Sobre as condições insalubres e precarizadas em que conviviam diariamente nas ruas, uma jovem amiga de Sandro relata revoltada e de maneira irônica:

É um chão gelado, não tem um conforto [...] dorme debaixo da marquise, o playboyzinho deitado lá em cima, em cima de uma cama, e a gente deixado aqui embaixo, no chão. Amanhã de manhã levanta, às vezes não tem um café pra tomar, aí a gente vai pra porta da padaria pedir um café ou mesmo roubar porque não tem o que comer. Quando cresce já cresce revoltado [...]


Diante de tudo isso, podemos concluir que vários fatores influenciaram para o processo de marginalização de Sandro e, sobretudo, para o desfecho trágico do sequestro por ele efetuado que culminou com a sua morte e a da jovem Geísa. Dentre esses fatores pode-se enumerar a falta de preparo técnico e emocional dos policiais, a falta de equipamentos que possibilitassem uma boa comunicação entre eles, e, principalmente, a falta de sensibilidade dos que dominam os meios midiáticos de informações, os quais preocupam-se demasiadamente em obter bons números de audiência banalizando, por tanto, a vida e o ser humano.  
Autor: Marcondes Torres.

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