Resenha do livro A Normalista de Adolfo Caminha

Fonte da imagem: Fortaleza Nobre (Escola Normal de Fortaleza-CE onde estudou a protagonista de A Normalista)

Em A Normalista, Adolfo Caminha faz duras críticas, implícitas e explícitas, aos costumes, tradições e hábitos cotidianos da sociedade cearense de sua época, os quais eram marcados pelo preconceito, a maledicência e a mesquinhez.
Aborda sob diversos ângulos e horizontes os comportamentos e caráter dos personagens, dentre os quais se destacam sujeitos de todas as classes socais desde os vendedores ambulantes da feira, como o lenhador; os pequenos funcionários públicos, como o copista de documentos ou o amanuense (João da Mata); a rendeira; o guarda-livros ou contador (Loureiro, esposo de Lídia, única amiga próxima de Maria do Carmo); até àqueles de maior prestigio e status social, como o presidente da província (Castro Alves), o estudante de direito (Zuza), os redatores dos jornais locais (Guedes e o José Pereira), o coronel (Sr. Souza Nunes). Cada um movido por ideias e ações preconceituosas com características peculiares.  
Na sua obra prima, Caminha aborda ainda várias temáticas recorrentes e comuns na sociedade cearense dos anos de 1870 e 1880, e bastante presentes na sociedade contemporânea, apesar de tantas lutas e debates de enfrentamentos, como o abuso sexual, moral e psicológico de crianças e adolescentes (pedofilia), geralmente cometidos pelos próprios familiares de convivência diária; o adultério, cometido, por exemplo, pela D. Terezinha, mulher do João Maria que era dissimulada e se considerava uma mulher correta; o sexo; o preconceito ou o chamado bullying escolar, sofrido por Maria do Carmo pelas suas colegas na Escola Normal; as relações amorosas e afetivas, como a de Zuza e Maria do Carmo que não chegam a efetivar-se devido os compromissos do estudante de Direito com a sua formatura em Recife e a sua falta de consideração e amor por Maria; a cultura da politicagem, do clientelismo e do favoritismo, além das disputas e ofensivas entre os jornais opositores e governistas que aqueles difamavam os governantes e sua gestão e estes a elogiavam, como os jornais locais Província e Matraca; as fofocas e maledicências da sociedade escrupulosa e preconceituosa e entre outros assuntos abordados ao longo do enredo.
Maria do Carmo era uma jovem normalista, ou seja, normal e simples como a maioria das moças de sua idade, era assim chamada por estudar na Escola Normal. Tinha um espírito bobo e pueril. Fora criada pelo padrinho, pois os pais não tinham condição de cuidá-la após migrarem do interior à capital da província durante um longo período de seca.  Sua mãe morrera e seu pai fora embora com os irmãos. O pai também morrera e ela ficara só no mundo sem parente de sangue próximo.
Seu padrinho, o João da Mata, era um pedófilo, sem escrúpulos, repugnante e asqueroso que vivia a abusando e a aliciando. Quando sua mulher começou a desconfiar das suas sem-vergonhices viviam brigando por motivos fúteis. Maria era alvo constante das suas descomposturas.
A normalista acabou engravidando muito nova, ainda adolescente, do padrinho que a abusou sexualmente certa vez na surdida da noite. Ela não teve forças e coragem de reprimi-lo, afinal era seu padrinho e quem lhe sustentava, se o fizesse poderia ser expulsa de casa e não ter para onde ir. Viveria como uma qualquer a pedir esmolas talvez para sobreviver.
A única amiga com quem dividia as suas alegrias e tristezas era a Lídia, uma rapariga que conhecera na Escola Normal. Lídia era conhecida por toda a cidade como uma oferecida que namorava com qualquer um. Deixou de ser o alvo das fofocas alheias quando casou-se com o Loureiro, um guarda-livros ou contador.
Depois de deixar a pobre afilhada prenhe, João da Mata propõe que ela se exile num sitio de seus antigos amigos, longe da cidade e dos comentários e curiosidade da vizinhança, pois se descobrisse logo a situação se tornaria numa falação estapafúrdia e indescritível por todo canto, gerando uma grande polêmica para a sua “honra”.
A criança morre logo depois do parto, provavelmente por causa da queda que sofrera em seguida ao nascimento, pois a parturiente estava em pé. João, por um momento ficou triste, mas logo depois alegrou-se, afinal não tinha mais com que se preocupar. Já Maria demorou muito tempo para se recuperar do trauma, mas meses depois voltou a sua rotina de antes, como frequentar as aulas para terminar o curso que iniciara. Tempos depois fica noiva do Coutinho, um conhecido militar da polícia imperial ou um alferes, como era conhecido na época.



 Autor: Marcondes Torres.

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Um comentário :

Raymundo Netto disse...

Marcondes, muito legal seu texto. Comento também para informar que a Escola Normal que aparece na foto não é a escola em que estudou a Maria do Carmo. No tempo do Caminha, a Escola Normal era em frente à praça José de Alencar, esquina paralela à rua do Trilho, onde morava a Maria do Carmo. Hoje é o prédio do IPHAN.

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